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Opinião CEANNE: Corticoides no trauma medular agudo: lições históricas e o risco metodológico na validação de novas terapias como a polilaminina

Dr. Gustavo Rassier Isolan
Médico neurocirurgião CREMERS 28493

Durante mais de três décadas, o uso de corticosteroides em altas doses, particularmente a metilprednisolona, foi considerado padrão terapêutico no tratamento do trauma raquimedular agudo. Essa prática baseou-se principalmente nos estudos NASCIS (National Acute Spinal Cord Injury Studies I, II e III), que sugeriram possível benefício neurológico quando o fármaco era administrado nas primeiras horas após a lesão.

Entretanto, a análise crítica posterior desses estudos revelou um exemplo clássico de como fragilidades metodológicas podem gerar condutas amplamente difundidas sem benefício clínico real. O problema metodológico dos estudos NASCIS era o de que os supostos ganhos neurológicos observados não foram demonstrados nos desfechos primários originais. O benefício surgiu apenas após análises pós-hoc, com subdivisão dos pacientes conforme o tempo de administração (<8 horas), estratégia reconhecidamente vulnerável a erro estatístico e viés de seleção. Revisões posteriores demonstraram que, quando todos os pacientes randomizados e com grupo controle eram analisados conjuntamente, não havia diferença significativa na recuperação neurológica entre grupos tratados e placebo.

Além da falta de eficácia clínica consistente para evitar sequelas nos pacientes com traumas da medula espinhal, acumulou-se evidência das complicações desse tratamento para os pacientes, com maior incidência de sepse e pneumonia, inclusive sugerindo aumento da mortalidade.

O episódio tornou-se um marco na medicina baseada em evidências: uma intervenção amplamente adotada por décadas foi sustentada por interpretação estatística inadequada e resultados clinicamente marginais.

À luz dessa experiência histórica, torna-se imprescindível extrema cautela diante de terapias emergentes que alegam recuperação funcional dramática — como relatos recentes envolvendo polilaminina, nos quais se afirma que pacientes com lesão medular voltariam a deambular após séries pequenas de casos.

A apresentação alardeada de resultados baseada em uns poucos pacientes sem metodologia adequada tais como, ausência de grupo controle prospectivo, randomização, mascaramento, análise por intenção de tratar e comparação com evolução natural da lesão, repete exatamente o ambiente científico que permitiu a consolidação equivocada dos corticoides no passado.

Sabemos de nossa prática como neurocirurgiões que lesões medulares incompletas possuem recuperação espontânea variável, particularmente nos primeiros meses. Sem grupo controle adequado, há risco elevado de atribuir à medicação aquilo que corresponde à história natural da doença. A história demonstra que séries pequenas com resultados impressionantes são o cenário clássico de falsas terapias revolucionárias.

Para que qualquer intervenção farmacológica em lesão medular seja considerada eficaz, são indispensáveis ensaio clínico randomizado prospectivo, grupo placebo e avaliação neurológica “cega”, que significa que nem pesquisador que está avaliando o paciente nem o paciente sabem se foi usada a medicação em estudo ou o placebo.

Sem esses critérios, há risco não apenas de erro científico, mas de exposição de pacientes vulneráveis a terapias ineficazes ou potencialmente danosas, repetindo um dos maiores equívocos terapêuticos da neurotraumatologia moderna.

Março de 2026